Você funciona, mas não descansa: ansiedade, burnout e o excesso de exigência no mundo atual
- psizuleicavicente
- 14 de abr.
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A experiência contemporânea do sofrimento psíquico apresenta uma configuração particular: sujeitos que mantêm alto nível de funcionamento, cumprem tarefas, produzem, respondem, mas que, simultaneamente, não conseguem descansar. Essa condição, frequentemente nomeada como ansiedade ou burnout, exige uma leitura que ultrapasse a dimensão individual e alcance as determinações simbólicas e materiais que a sustentam. A partir de uma interlocução entre a psicanálise lacaniana e a crítica marxista, propõe-se aqui compreender esse fenômeno como efeito da articulação entre o imperativo de gozo e as formas contemporâneas de exploração do trabalho.
Do ponto de vista da psicanálise, Jacques Lacan introduz uma inflexão decisiva ao deslocar a compreensão do sofrimento do campo da falta para o campo do gozo. Em seu ensino, especialmente a partir do Seminário 17, o autor formula a noção de que o sujeito moderno não é apenas interditado, mas convocado a gozar, isto é, a responder a um imperativo que ultrapassa o princípio do prazer. O supereu, longe de operar apenas como instância de proibição, assume a forma de um comando paradoxal: “goza!”. Esse imperativo, ao invés de produzir satisfação, intensifica o sofrimento, pois exige do sujeito uma resposta contínua a uma demanda impossível de ser plenamente atendida.
Essa exigência encontra, no capitalismo contemporâneo, condições privilegiadas de realização. A crítica marxista permite situar esse imperativo no interior das transformações do modo de produção. Como aponta Marx, o capitalismo não se limita à exploração da força de trabalho no tempo produtivo estrito, mas tende a expandir-se sobre a totalidade da vida social. Nas formas atuais de organização do trabalho, essa expansão se intensifica, incorporando dimensões subjetivas, afetivas e cognitivas ao processo produtivo.
Autores contemporâneos da tradição marxista indicam que essa dinâmica se radicaliza com a reestruturação produtiva e a hegemonia neoliberal. Ricardo Antunes destaca que o trabalho passa a exigir não apenas força física, mas engajamento total do sujeito, incluindo sua disponibilidade psíquica e emocional . O resultado é uma forma de exploração que não se limita ao tempo de trabalho, mas invade o tempo de vida, dissolvendo as fronteiras entre produção e reprodução.
É nesse ponto que a articulação com a psicanálise lacaniana se torna particularmente fecunda. O sujeito que “funciona, mas não descansa” é aquele capturado por uma lógica na qual o gozo se articula à produtividade. A exigência de desempenho não é apenas externa; ela é internalizada sob a forma de um supereu que exige sempre mais. Como observa Slavoj Žižek, no capitalismo contemporâneo, a injunção não é mais “não gozarás”, mas “deves gozar”, o que produz um tipo específico de sofrimento marcado pela impossibilidade de satisfazer essa exigência .
Nesse contexto, o descanso torna-se problemático. Não se trata apenas da ausência de tempo livre, mas da impossibilidade subjetiva de sustentar uma pausa. O sujeito que tenta descansar se vê imediatamente confrontado com a sensação de insuficiência, como se estivesse em falta com uma demanda que nunca se esgota. O descanso, em vez de operar como interrupção do circuito produtivo, é capturado pela lógica do desempenho, transformando-se em mais uma tarefa a ser otimizada.
A noção de gozo permite compreender por que o sujeito participa ativamente dessa dinâmica, mesmo quando ela lhe causa sofrimento. O gozo não é equivalente ao prazer; ele implica uma dimensão de excesso, de repetição, que ultrapassa a lógica utilitária. Assim, o sujeito não apenas sofre com a exigência de desempenho, mas também se implica nela, encontrando aí uma forma de satisfação paradoxal. Essa implicação subjetiva é o que torna insuficientes as abordagens que propõem apenas a redução de demandas ou a melhoria das condições externas, embora estas sejam fundamentais.
Isso não significa, contudo, desconsiderar as determinações materiais do sofrimento. Ao contrário, a articulação com a crítica marxista permite afirmar que o sofrimento contemporâneo não é produto de falhas individuais, mas de uma organização social que exige do sujeito um engajamento contínuo e ilimitado. Como aponta István Mészáros, o capital opera por meio de uma lógica expansiva que subordina todas as esferas da vida à sua dinâmica de valorização. Nesse sentido, o sujeito que não descansa não é um desvio, mas uma expressão dessa lógica.
A clínica psicanalítica, nesse cenário, não pode ser reduzida a um dispositivo de adaptação do sujeito às exigências do sistema. Ao contrário, sua ética implica a escuta do que, no sofrimento, resiste à normalização. Trata-se de abrir um espaço no qual o sujeito possa interrogar a lógica que sustenta seu modo de funcionamento, em vez de simplesmente buscar alívio imediato. Como sustenta Lacan, a direção do tratamento não é a adaptação, mas a produção de um saber sobre o próprio desejo .
Assim, a condição daquele que “funciona, mas não descansa” revela uma contradição central do capitalismo contemporâneo: a exigência de produtividade ilimitada articulada a um imperativo de gozo que nunca se satisfaz. Entre a exploração material e a captura subjetiva, o sujeito se vê convocado a sustentar um modo de vida que o esgota. A análise dessa condição exige, portanto, uma abordagem que articule as dimensões social e psíquica, reconhecendo que o sofrimento não é apenas efeito de circunstâncias externas, nem exclusivamente de conflitos internos, mas da relação entre ambos.
Para tanto, compreender por que o sujeito não descansa, mesmo quando continua funcionando, implica deslocar a questão do plano individual para o plano estrutural. Trata-se de interrogar não apenas o que o sujeito faz, mas o que o faz continuar fazendo. É nesse ponto que a psicanálise, em diálogo com a crítica marxista, pode contribuir para uma leitura mais rigorosa do sofrimento contemporâneo, abrindo possibilidades de intervenção que não se limitem à adaptação, mas que permitam ao sujeito reposicionar-se frente às exigências que o atravessam.
Referências
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2002.
ŽIŽEK, Slavoj. O mais sublime dos histéricos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
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