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O Retorno às Formas Ideais e a Captura do Desejo Feminino: uma leitura lacaniana

Atualizado: 5 de set. de 2025

Resumo

Este artigo analisa o retorno às formas ideais — como a “esposa ideal”, o “filho ideal” e a “mulher ideal” — à luz da psicanálise lacaniana, do marxismo feminista e da crítica feminista à psicanálise. Considerando a interseccionalidade e o avanço político da ultradireita conservadora, argumenta-se que tais ideais funcionam como dispositivos de controle simbólico e material, disciplinando corpos e subjetividades em consonância com a lógica capitalista e patriarcal. A partir de Lacan, Federici, Davis, Gramsci e autoras como Juliet Mitchell e Elisabeth Roudinesco, demonstra-se que a tentativa de reatualizar esses modelos busca conter as transformações sociais impulsionadas pelo feminismo, pelo antirracismo e pelos movimentos LGBTQIA+.

Palavras-chave: ideais; psicanálise lacaniana; marxismo feminista; interseccionalidade; conservadorismo.


1 Introdução

A ascensão contemporânea da ultradireita tem sido acompanhada por um movimento de retorno a formas ideais de gênero e família, que resgatam no imaginário coletivo figuras como a "esposa ideal", o "filho exemplar" e a "mulher de verdade". Esses ideais são mobilizados politicamente como símbolos de ordem e tradição, mas respondem, em verdade, a necessidades de reprodução da hegemonia patriarcal-capitalista.

A psicanálise lacaniana e do materialismo histórico e dialético, aliados às críticas feministas à própria psicanálise, oferecem ferramentas para compreender como esses ideais operam na interseção entre inconsciente, ideologia e relações de produção, funcionando como dispositivos de disciplina e alienação.


 

1.1  O ideal na perspectiva psicanalítica lacaniana

Na teoria lacaniana, o ideal é uma instância que organiza o sujeito em relação ao Outro. Lacan (1998, p. 828) distingue entre o eu ideal e o Ideal do Eu, sendo este último efeito da internalização do olhar do Outro. A “mulher ideal” e a “esposa ideal” constituem significantes que ordenam o desejo, mas também o aprisionam, já que não há sujeito capaz de encarnar plenamente tais posições.

Ao afirmar que “A mulher não existe” (LACAN, 1998, p. 13), Lacan não nega a existência concreta das mulheres, mas aponta a impossibilidade de um significante universal que as totalize. Assim, qualquer ideal de “mulher perfeita” é um semblante, uma construção imaginária que tenta tamponar a falta estrutural do desejo.

Juliet Mitchell, pioneira na aproximação entre psicanálise e feminismo, ressalta que “a psicanálise não descreve a mulher como ela é, mas as formas pelas quais ela é construída” (MITCHELL, 1974, p. 421). Elisabeth Roudinesco (1999, p. 214) acrescenta que “o discurso psicanalítico, longe de fixar essências, revela a impossibilidade de reduzir a mulher a uma identidade única”. Nesse ponto, a crítica feminista converge com Lacan: os ideais universais são sempre alienantes, porque capturam o desejo em modelos inatingíveis e normativos.

 

1.2 O ideal na visão do materialismo histórico e dialético

Na perspectiva do materialismo histórico e dialético, os ideais de gênero cumprem função concreta na reprodução social e material das desigualdades. Federici (2019, p. 35) demonstra que “a expropriação do trabalho feminino no espaço doméstico foi condição fundamental da acumulação capitalista”. O ideal da esposa perfeita legitimou essa exploração ao naturalizar a gratuidade do trabalho de cuidado, convertendo-o em um dever moral.

Angela Davis (2016, p. 240) destaca que “a ideologia da domesticidade não foi universal, mas racialmente diferenciada”, já que mulheres negras foram historicamente excluídas da possibilidade de se enquadrar na imagem da dona de casa ideal, sendo forçadas a ocupar posições de trabalho compulsório e precarizado. Esse dado reforça a centralidade da interseccionalidade: gênero, classe e raça se articulam no processo de produção e reprodução dos ideais.

Engels (2012, p. 89) já havia indicado que “a primeira opressão de classe coincide com a opressão do sexo feminino pelo masculino”, evidenciando como a dominação de gênero é constitutiva da estrutura social. Nesse sentido, o retorno contemporâneo às formas ideais não pode ser entendido apenas como nostalgia cultural, mas como atualização de mecanismos históricos de exploração e disciplina.

Além disso, observa-se a imposição de novas representações estereotipadas, como a da mulher multitarefa, celebrada como “heroína” por conciliar trabalho, maternidade, vida doméstica e cuidado com a aparência. Esse elogio aparente opera como armadilha ideológica: longe de significar libertação, transforma a sobrecarga em valor moral, individualizando responsabilidades que são estruturais e mascarando a lógica capitalista-patriarcal que dela se beneficia.

 

1.3 O olhar do materialismo histórico e dialético sobre as formas ideais

Na visão do materialismo histórico e dialético, os ideais de gênero não se limitam a uma construção simbólica, mas cumprem uma função concreta na reprodução das relações de exploração. Federici (2019, p. 35) demonstra que “a expropriação do trabalho feminino no espaço doméstico foi condição fundamental da acumulação capitalista”. O ideal da esposa perfeita legitima essa exploração ao naturalizar a gratuidade do trabalho de cuidado, transformando o afeto e a dedicação materna em obrigações invisibilizadas.

Davis (2016, p. 240) evidencia ainda que “a ideologia da domesticidade não foi universal, mas racialmente diferenciada”, uma vez que mulheres negras foram historicamente impedidas de ocupar o papel da dona de casa ideal, sendo relegadas ao trabalho compulsório e subalterno. Assim, a produção dos ideais nunca se deu de forma homogênea: ela sempre esteve atravessada por classe, raça e gênero, o que reforça a necessidade de uma análise interseccional.

Engels (2012, p. 89) já havia destacado que “a primeira opressão de classe coincide com a opressão do sexo feminino pelo masculino”, apontando a centralidade da dominação de gênero na formação da ordem social. O retorno contemporâneo a tais formas ideais representa, portanto, não apenas um retrocesso cultural, mas uma reatualização de dispositivos históricos de exploração.

Nesse movimento, observa-se também a construção de novos estereótipos que se apresentam como positivos, mas que operam igualmente como mecanismos de dominação. É o caso da imagem da “mulher guerreira” ou “heroína”, exaltada por sua capacidade de conciliar múltiplas jornadas — profissional, doméstica, materna, afetiva — mas permanentemente cobrada por performances impecáveis em todos os âmbitos. Essa figura, aparentemente empoderada, oculta uma sobrecarga material e psíquica que, em última instância, serve à manutenção do sistema capitalista e patriarcal: naturaliza a exploração ao transformá-la em mérito pessoal e expectativa social.

Assim, sob a ótica do materialismo histórico e dialético, tanto os modelos tradicionais de submissão quanto as versões modernas de heroísmo feminino operam como engrenagens ideológicas que reforçam a disciplina do corpo e do desejo, legitimando a exploração estrutural das mulheres.

 

1.4 O ideal na engrenagem conservadora da hegemonia e da subjetivação

O ressurgimento contemporâneo da ultradireita não se limita a um fenômeno político-institucional, mas envolve a mobilização de formas ideais de gênero e família como parte da disputa pela hegemonia cultural. Gramsci (2001, p. 276) explica que a hegemonia se consolida quando “uma concepção de mundo se transforma em senso comum”, naturalizando relações historicamente construídas. É nesse registro que o imaginário da “família tradicional”, da “esposa ideal” e do “filho exemplar” se apresenta: como modelos atemporais, ocultando suas raízes históricas no patriarcado e no capitalismo.

Do ponto de vista lacaniano, esses ideais funcionam como semblantes que oferecem ao sujeito uma imagem de completude, mascarando a falta estrutural que constitui o desejo. Lacan (1998, p. 828) lembra que o Ideal do Eu é efeito do olhar do Outro, e que a tentativa de encarnar esse ideal aprisiona o sujeito em posições alienantes. No caso das mulheres, a convocação a ocupar lugares como a “mãe abnegada” ou a “mulher de verdade” é uma forma de disciplinar o desejo, reinstalando-o no campo da obediência.

Ian Parker (2010, p. 57) observa que “o discurso neoliberal captura a subjetividade ao transformar até a vida íntima em campo de produtividade e moralidade”. Esse processo opera em sintonia com o conservadorismo, que reafirma ideais de gênero como referências de virtude, mas, em verdade, reforça um regime de controle social. A exigência de que a mulher seja ao mesmo tempo produtiva, cuidadora, bela, disponível e resiliente não é apenas uma cobrança simbólica, mas também um dispositivo de exploração material de sua energia e de seu tempo.

Catherine Clément (1981, p. 92) sintetiza essa lógica ao apontar que “a mulher é convocada a representar sempre o lugar do Outro, mas raramente se autoriza a falar como sujeito”. A engrenagem conservadora reforça essa dinâmica: ao mobilizar ideais estereotipados, silencia o desejo singular das mulheres e reinstala o imperativo da conformidade. Trata-se, assim, de um processo de subjetivação que, sob o disfarce da moralidade e da tradição, busca conter os avanços do feminismo, das lutas antirracistas e dos movimentos LGBTQIA+, recolocando corpos e subjetividades sob a ordem patriarcal-capitalista.


Concluindo

O retorno às formas ideais — esposa, mãe, filho ou mulher perfeitos — é uma estratégia de poder que responde tanto a condições materiais de exploração quanto a necessidades simbólicas de controle subjetivo.

Do ponto de vista psicanalítico, esses ideais funcionam como semblantes alienantes que mascaram a falta estrutural e aprisionam o desejo. Do ponto de vista marxista feminista, são dispositivos que naturalizam a exploração do trabalho reprodutivo e reforçam hierarquias de gênero, raça e classe. No contexto atual, a ultradireita conserva tais modelos como armas culturais para conter os avanços feministas e emancipatórios.

Resistir a esses ideais implica afirmar a incompletude como condição da subjetividade e a pluralidade das experiências femininas como prática política. Como lembra Roudinesco (1999, p. 221), “a emancipação não reside em encontrar a essência da mulher, mas em reconhecer a impossibilidade de fixá-la”.

 

Referencial teórico

CLÉMENT, Catherine. A mulher do discurso. Rio de Janeiro: Rocco, 1981.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2012.

FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas. São Paulo: Elefante, 2019.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MITCHELL, Juliet. Psicanálise e feminismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

PARKER, Ian. Psicanálise e política: introdução crítica a Freud e Lacan. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

Autoria: Zuleica Vicente (VICENTE Z C M)

 


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